Eu limpo minha sujeira. E você?
O assunto é espinhoso e incomoda. Se não incomodasse, ninguém iria se defender ou justificar. As pessoas elaboram discursos bonitinhos, cheios de palavras difíceis. Buscam dados históricos, filosóficos, médicos e religiosos que justifiquem sua ESCOLHA de explorar mão de obra barata pra realização dos trabalhos domésticos contratar uma empregada doméstica. Como último recurso [quase que desesperado] apelam e passam a bola pra desqualificar a crítica: Qual a solução então?
Porra, velho, eu não tenho a menor idéia. Eu não acho que se todas as MADAMES (e seus maridos inúteis) dispensassem as SUAS empregadas domésticas, isso seria suficiente pra resolver o problema.
Pessoalmente, não acho que pagar pra alguém fazer o trabalho doméstico seja algo terrível. A merda é que existe uma estrutura de exclusão permanente, só pra pra atender esta demanda. Somos explorados pelos ricos (as empresas) e exploramos a classe que está logo abaixo da nossa. Não são só as empregadas domésticas: garis, pedreiros, lixeiros, babás, garçons, manobristas, entre outros, passam pelos mesmos problemas. São trabalhos reservados a determinada classe. Nem todo mundo pode escolher entre ser gari ou doutor, ser dentista ou doméstica, ser lixeiro ou cineasta. No caso das empregadas domésticas o caso é pior porque o trabalho é informal. Isso significa que, ainda que a pessoa passe 30 anos trabalhando pra você, não há qualquer vínculo empregatício. Algumas alegam que “não tem condições de pagar melhor ou de bancar os direitos trabalhistas…”. Outras, são mais cretinas e dizem: “não sou empresa, pra registrar funcionário”. E também tem o clássico “Ela não é minha empregada, ela só vem aqui de vez em quando”.
Minha mãe tem 50 anos. Nenhum registro em carteira, mesmo tendo trabalhado até os 40. Todas as empregadoras tratavam bem, pagavam um valor digno [sic]. E agora? A velhinha vive de que? Ah claro, a burra foi ela que nunca se organizou pra fazer um plano de previdência privada e uma poupança pra faculdade dos filhos, né?
O fato é que pessoas que EXPLORAM mão de obra barata, contribuem pra manutenção desta estrutura, carreada de significados e com ligação direta com a rescravidão (basta olhar a cor dos que estão servindo cafézinho no shopping, recolhendo o lixo, varrendo as ruas e limpando a SUA casa e vestidas de branco durante as festas nos bifês). As filhas da minha mãe vão limpar a bosta dos filhos das patroas dela (futuros doutores) em um ciclo de exploração infinita onde a miséria é uma variável necessária e conveniente. No capitalismo, uma parte da população sempre vai ser mantida as margens do crescimento pra fazer aqueles trabalhos que ninguém quer e é isso que me fode. A gente fica numa luta fodida contra o sistema e alimenta suas contradições, numa demonstração prática doduplipensamento, tão bem apresentada por Orwell.
Eu sei bem que o trabalho doméstico é cansativo, difícil e que muitas pessoas realmente não tem tempo de fazer. Mas pensemos um pouco: e se a exploração de mão de obra doméstica fosse considerado um crime, como a cafetinagem? A gente não ia dar um jeito, se virar nos 30, mobilizar até o gato pra limpar a casa?
E o que você pensa? Que a mulher que vai na sua casa limpar não tem a própria pra limpar também?
Se você pode pagar, é um privilégio e, no mínimo, você devia ser mais coerente quando reclamar da exploração capitalista, ou quando gritar pela libertação da mulher (é, porque eu acho que você não vai encontrar muitos homens disponíveis pra fazer esse serviço).
Quando você pensar que esta fazendo um favor a sua empregada, pense no que vai ser da vida dela quando ela não puder mais ser diarista.
Como disse lá em cima, não tenho nenhuma fórmula mágica. Mas isso precisa deixar de ser um tabu. Precisa ser discutido e deuxar de ser naturalizado como prática padrão.
E também é preciso deixar de corpo mole. Não tem essa de não ter tempo, ou de não pder fazer por causa do reumatismo. Foda-se seu reumatismo, se vira.
Aqui em casa somos eu, a Renata, duas cadelas e um gato. A gente se vira. Vai lavando a louça conforma a pia vai anchendo (acabou o espaço, precisa lavar). Passa pano no chão quando dá. Eu lavo minha roupa na mão (não tenho máquina de lavar) e como não curto e sou bem preguiçoso, deixo de molho um dia inteiro, enxáguo e ponho pra secar. Do varal pra vai pra gaveta. “Ah, mas eu gosto de roupas cheirosas, macias e passadinhas”, okey, então vai lá e faz isso. É assim, eu não curto trabalho doméstico mas é necessário, então, acabao arranjando meus jeitos pra fazer aos poucos, sem me torturar, fazendo mal feito quando dá, procrastinando ao máximo.
Nessas discussões, com a consciência pesada (porque convenhamos, feministas tem discernimento pra entender sobre opressão de classe), as pessoas pedem uma solução, quando você aponta, sempre buscam uma saída sem vergonha. Você pode dar 30 alternativas… a pessoa vai arranjar 60 motivos pra continuar com seu conforto. E são os mais diversos. Também os mais absurdos (do ponto de vista de quem pensa justiça e igualdade como valores necessários em sua PLENITUDE).
Acho que sempre vai haver demanda para o trabalho dooméstico, visto que as pessoas passam cada vez menos tempo em casa. Mas é preciso profissionalizar a parada, criar uma tabela de preços, uma lista negra de patrões que abusam (fisica, psicologica u sexualmente), uma cooperativa (de verdade, não daquelas que alugam mão de obra) pra manter um cadastro das empregadas. Que o trabalho autônomo dessas mulheres seja VALORIZADO em todos os âmbitos e reconhecidos para que estas tenham todos os direitos de um trabalhador que contribui com a roda do capitalismo. Foda-se se elas não estudaram. São PESSOAS.
Daí, amenizar sua canalhice com o discursinho paternalista do “eu estou ajudando“ ou o do “as coisas estão melhorando e daqui a 100 anos, não vamos mais ter empregadas domésticas mas enquanto tiver eu vou usar e abusar“, não faz você menos maldita do que os donos do Wall Mart dos EUA, que fazem seguro de vida pra seus funcionários em que eles mesmos são beneficiados pela morte de um funcionário, ainda que ela seja causada pela atividade exercida.
Seus argumentos acadêmicos, entupido de balelas burguesas não diminuem a sua participação no processo de exploração. E eu sei que voccês não vão abrir mão de seus privilégios. Mas saibam que a intransigência na opressão de classe, é a mesma intransigência na opressão de gênero, de cor… Só muda o grau e o endereço do apartamentozinho descolado/chique, o gênero e a cara-de-pau do opressor. Bem la no fundinho, as incoerências e a hipocrisia são as mesmas.

Bancando o advogado do diabo, o que seria feito com quem trabalha hj como empregada (ou esmo gari) se fosse proibido esse tipo de serviço? Iam pra rua, se virar?
Nem digo das empregadas, mas como viver sem garis? Sem ter quem limpe o chão e etc duma empresa, por exemplo?
De certa forma acho que há uma visão errada sobre o trabalho, como se fosse necessariamente degradante. Talvez seja, mas será que sempre? Não há dignidade nisso?
Mesmo em uma sociedade ideal, com oportunidade pra todos e etc nem todos seriam doutores, nem todos tem a mesma capacidade ou o mesmo interesse. E, fato que no Brasil há uma exploração, mas veja nos EUa por exemplo, onde babás são muitas vezes universitárias complementando a renda, ou na Europa, onde muita empregada ganha mais do que patrão no Brasil…
É um assunto difícil, apenas argumento sem ter exatamente uma opinião.
Eu tenho faxineira, que vai 2 vezes po mês em casa. Sou asmático, não posso fazer serviços domésticos e não tenho absolutamente nenhum tempo e acho sim que minha faxineira ganha mal e de certa forma contribuo com isso. Mas o que fazer?
Eu sei bem que a situação é complexa e, como disse no post, também não tenho a meenor idéia de como solucionar.. Mas acho que é preciso colocar o assunto na pauta, afinal, a luta é por DIREITOS IGUAIS, certo? A exploração é característica do sistema capitalista.. A degradação de certas atividades também (só é importante quem estudou e tals)… Em outro texto que escrevi sobre o assunto, uma amiga que mora no japão disse que lá não ocorre esse tipo de bizarrice, que as pessoas tem consci~encia da importância do trabalho das outras…
Claro que sempre haverão pessoas que querem ser doutores, advogados e médicos e haverá aquelas que não desejam seguir por este caminho.. mas o JUSTO, mesmo é que TODOS tivessem o direito de escolher, não?
Isso pesa mto pra mim (e imagino que pra vc também) pq as couisas são muito mais difíceis…
Cara, não é uma suposição: escola pública não forma ninguém pra entrar na universidade… Não da informação nenhuma, não trabalha os conteúdos de forma adequada.. isso não é coincidência… A exclusão é conveniente e necessária a esta estrutura…
Eu não acho o trabalho doméstico indigno… mas e aí, eu sou exceção ou regra?
Tampouco acho que a solução seja a demissão de todos os domésticos.. Minha idéia é colocar o assunto na fogueira (não a santa), debater, discurit, buscar alternativas pra que não seja mais algo tão natural…
É como fazer parte do sistema capitalista.. Eu não me agrado, mas não quero viver como um ermitão, então, jogo o jogo… No caso das empregadas, pode ser da mesma forma, não?
É fato que a saída nunca vai vir se continuarmos naturalizando, agindo como se fosse um problema sem solução e tals…
Acho que é isso..
Valew por compartilhar…
Não acho razoável alguém saudável precisar que outra pessoa limpe a sua sujeira. Cada um limpa a sua. Conheço asmáticos que fazem sua própria faxina, Raphael. E não venha falar de falta de tempo para mim, porque durmo em média três horas a cada 24. Sempre lavei a minha própria roupa e limpei meu espaço. Já tive condições de pagar alguém, mas nunca tive delírios classemedianos pequeno-burgueses de “ter uma empregada”. Indigno não é o trabalho doméstico, é uma pessoa jovem e saudável explorar outra para limpar sua sujeira.
ps: E eu tenho que fazer esse discurso classista para um camarada de esquerda justo no aniversário de morte de Marx, que deve estar sentado no túmulo revirando a cabeça igual a guria d’O Exorcista… Apaporra cês tudo que ficam tentando justificar o injustificável! Pronto, falei.
Bem, é mero achismo. Você não acha suadável, mas pra mim é um emprego como qualquer outro que, por preconceito, se torna degradante e mal pago.
Todo trabalho, se você for manter essa linha, é degradante e exploração. Todo trabalho na sociedade capitalista se trata de exploração de mão de obra.
Não Raphael, não é preconceito. É coisa de quem acha que puta, pedreiro, gari, doméstica, babá no Brasil é emprego comum, como outro qualquer.
Não é.
Minha mãe tmb tem asma e alergia a poeira e trabalhou quase a vida toda como empregada. E aí?
A sua asma é especial por acaso?
Minha sempre se virou limpando pó e chegava em casa morrendo, sem ar e espirrando sem parar.
mas ela precisava trabalhar. Até q meu pai proibiu ela de trabalhar (mais por machismo mesmo) e ela agora se mata em casa.
Tmb tem essa de tratar a mãe como uma empregada. minha família toda é assim.
Qdo se fala em emprego digno, veja condições em que os trabalhadores se expõe de fato mesmo e perceba q a maioria é humilhada.
Bem, eu vejo como profissões normais e honrada,s como qualquer outra e até mais que algumas…
Mas em termos de se expor a situações, bem, quem trabalha em indústrias também se expõe a perigos, que trabalha com químicos, com pesticidas e etc também se expõe a situações degradantes, eu não vejo nisso o problema.
Mesmo quem tem que passar o dia escrevendo, um jornalista, por exemplo, pode sofrer por causa do uso excessivo do computador, e imagine um repórter de guerra, que pode ser torturado, morto… Faz porque gosta. Mas são trabalhos, em geral,degradantes. A diferença é que são bem vistos socialmente, em geral tem garantias de previdência e etc. Aí reside a diferença, ao meu ver.
Não quero e nem posso te dizer como encarar a coisa, você sem dúvida tem muita experiência na questão, vem de uma família que se encaixa no que estamos debatendo aqui, mas esta é minha visão.
Tive tia que vendia doces pra viver, outra que também era faxineira, elas já morreram, mal as conheci, mas ouvi as histórias. Na minha família, pelo menos, são histórias contadas com orgulho, porque sustentaram a família com trabalho duro, mesmo que degradante pra alguns.
A profissão é honrada assim como as pessoas. O degradante está em nós, pessoas normais e saudáveis precisarmos explorar outra pessoa para limpar a nossa sujeira. Não é o emprego, a função ou esses trabalhadores que são indignos. Deu pra entender?
Respeito sua opinião, mas discordo. E não se trata só de casa. Como fica a rua sem garis, como ficam os prédios de escritórios sem quem limpe? Isso de “cada um limpa o seu” é uma bela utopia, mas impraticável.
Vamos por partes:
1. Degradação ou atividade degradante.
Acho que a degradação está na estrutura e não no trabalho em si. Eu acho muito mais honesto e “limpo” trabalhar como gari, que cumpre uma função social, do que um banqueiro q e responsável pelo lixo q é a sociedade.
Acredito que mesmo numa sociedade perfeita os garis ou ao menos as profissões mais subalternas existiriam, a questão aí está na visão que se tem delas. A nossa sociedade coloca as profissões menos especializadas como necessariamente inferiores ou indignas porque quem está nelas não teve oportunidades na vida, foi abandonado. MAs ao meu ver são profissões tão ou mais relevantes que muitas das especializadas.
Oras, eu valorizo pacas a empregada que meu avô tinha e que ajudou a me criar, mas claro que sei da condição, da situação, que mesmo com toda a amizade e etc ela continua em posição subalterna. E isso é uma merda. Eu valorizo minha faxineira, mas sei que o que faço é muito pouco e que a sociedade tá pouco se fodendo pra ela.
Se eu ganhasse mais, pagaria mais, mas não seria suficiente, porque em muitos casos não é nem o dinheiro que conta, mas a própria visão que a sociedade tem destes empregos e de quem atua neles.
2. Direitos Iguais: Direitos iguais não pressupõem trabalhos iguais, é a questão que eu disse da visão da sociedade sobre uma profissão. Pq um catador é visto como lixo enquanto um empresário q só ferra o país é visto como herói.
3. Japão e etc: Pois é, a questão central é a degradação do trabalho e não o trabalho em si. Não é o “limpar a sujeira do outro”, e sim a condição social em que isto se insere. Mesmo em sociedades mecanizadas alguém limpa a sujeira, nem que seja controlando um robô, mas a dinâmica social é a mesma, ou deveria, a pessoa continua sendo aquela que limpa a sujeira.
E, no Brasil, querendo ou não, dada nossa situação econômica e configuração social, o emprego no setor da limpeza – pra ser eufemístico – acaba sendo necessário e importante fonte de renda, com todos os problemas. Sim, devemos combater os milhões de abusos, mas acho que mais importante é combater a mentalidade.
4. Escolhas: Exato, este é também ponto central.
Escola Pública: Sim, eu sei, é fato. Quem consegue, da escola pública, chegar a uma universidade pública e se dar bem é uma exceção digna de nota. Mas é aquilo, mesmo as escolas particulares formam para o mercado, para a especialização da classe e não para a vida. A escola pública é ainda pior, pois te elimina as expectativas, mas o problema da educação é geral.
Eu não quero ser empresário, eu não quero trabalhar em empres,a eu sou da academia, mas encontro milhões de dificuldades pra seguir no caminho, porque não tem apoio, não tme incentivo. Você é bem visto quando vira professor universitário, mas até lá é um vagabundo. Ninguém se preocupa com a etapa.
Imagina então prof de escola pública e os alunos!
Indignos: Exceção. Muitos tem, mas sentem nojo, não respeitam, fingem tratar como iguais e etc. A própria barreira social impõe e tem quem goste de surfar na onda. Vai com gosto perpetuar preconceito.
Enfim, eu não defendo o fim do trabalho no setor de limpeza, acho que cumpre uma função social importante, mas sim uma mudança na mentalidade da sociedade, no modo de produção. A questão central, ao meu ver, é esta. Essa discussão é mito bem vinda e acredito estar indo pelo caminho certo!=)
Concordo plenamente em relação a degradação da atividade.. A questão é a importânci que nós damos a estas atividades, que não são menos importantes (uma greve de 1 semana dos lixeiros de Sp e o povo ia perceber isso).
Sobre os direitos iguais, citei a igualdade de acesso, de opções… Isso é essencial.. Depois disso estruturado a pessoa que decida que rumo vai tomar..
Enfim, concordamos em todos os pontos… E como disse, a idéia do texto é trazer o assunto a tona…
Pra mudar essa mentalidade precisamos começar a agir… Minha opção é não fazer parte do grupo que explora, mostrar que há sim, alternativas.. MAs elas são viáveis somente àqueles que estão dispostos a abrir mão de alguns privilégios…
Thiago,
Eu gostei muito do post e da discussão. A gente tá discutindo isso no forum das blogueiras feministas, porque a Niara linkou o seu post anterior.
Vou te contar minha situação: tem uma pessoa que faz faxina na minha casa a cada 15 dias. Eu escolhi que seja só a cada 15 dias justamente porque assim tenho condições de pagar um valor que eu considero mais justo, acima do mercado. Antes dela trabalhar lá, por 3 meses, eu e meu marido dividíamos as tarefas. Resolvemos que terceirizar esse serviço, pagando um valor digno, não seria um mal. Não tenho a menor postura de sinhá. Antes de terceirizar o serviço, não fazia questão de passar minhas roupas, então ela também não passa. Ela só faz o que a gente faria se ela não estivesse lá. Além disso, eu mesma já limpei casa do outros (fora do país, mas já fiz isso) e não achei degradante nem me senti humilhada, e tenho uma tia-avó que educou meus primos com o salário que tinha como empregada doméstica (ela era registrada e pode se aposentar).
Tenho plena consciência de que estou usufruindo de um privilégio proporcionado pela exclusão social, apesar de oferecer condições de trabalho melhores do que a média. Como eu não defendo a minha necessidade de usar este serviço, como já fiquei sem e vivi numa boa, minha questão é mesmo me convencer de que só por estar fora deste sistema estaria contribuindo mais para que as condições de exclusão não sejam perpetuadas do que com a postura que tenho hoje, de tratar a pessoa que trabalha pra mim como uma prestadora de serviço e não uma escrava.
Mas o ponto que pega pra mim, pega muito, pega horrores, é o da previdência. Eu acho que realmente deveria haver uma maneira de contribuir pra previdência das diaristas, porque eu já quebrei a cabeça e não achei como. Já ouvi falar de casos de pessoas pagavam coletivamente, mas eram duas ou três pessoas que juntas ocupavam a semana inteira da diarista. No final do ano eu pago 2 dias extras (como um 13º, já que ela vem 2 dias por mês só), quando eu recebo o meu dissídio reajusto o valor do dia dela, mas nada disso é o suficiente, eu sei. Isso é só o mínimo do mínimo. Daí eu não me considero uma sinhá escravocrata, mas também não acho que tá tudo bem. Este é realemente um assunto que precisa ser debatido, porque essa é uma categoria profissional em que reina a informalidade e o abuso.
Sabe Iara, pra quem esta do lado de cá, é um pouco difícil perceber o significado disso. Algumas pessoas não conseguem conceber o que é viver na exclusão de direitos básicos… Há quem diga que estas pessoas são vítimas das circunstâncias… É recusar-se a enxergar a estrutura que mantém essas amarras, contribuindo pra perpetuação desse modelo…
É óbvio que nem todo mundo abusa, esculacha e pra mta genteo trabalho não é degradante (e nem deve ser.. e nem é) .. Mas, esses casos são a exceção e não a regra…
Depois de escrever o texto e refletir um pouco mais, pensei por estes termos: como solucionar? Abolição do serviço doméstico é ruim? Claro que não.. É justo que as pessoas possam optar e a grande merda é que esse privilégio é permitido somente a uma classe… Ao restante, cabe a resignação… Ou aceita servir os “patrões”, ou vai robar, ou vi9ve as margens da sociedade…É justo?
Optei por não pagar ngm pra realizar esse serviço.. Óbviamente pq sequer emprego tenho.. E se eu estivesse do outro lado?
Todos as coisas que vc faz servem pra amenizar, tornar a coisa menos difícil pras duas partes, mas não tira o aspecto da exploração. É ocmom as emrpesas exigirem de nós o máximo, oferecer salários maiores e tals, mas a nossa situação enquanto “escravos” do nosso trabalho não muda.
Como o Tsavkko disse, é nossa mentalidade que ta errada.. De tratar esses profissionais (de forma geral, claro) como subalternos, como inferiores… Ignoramos o impacto de nossas ações na vida destes…
Há um abismo que separa empregado e empregador… e é essa relação que precisa ser corrigida…
Como você disse, “vc não acha que esta tudo certo”.. ocorre que a maioria das pessoas não pensa assim… Quando pensa, ta cagando pro problema, pq não a afeta sua vida ou a de seus familiares nem indiretamente… E é isso que precisa ser mudado.. Não da pra fingir que é um problema sem solução e que não tem jeito, pq assim é confortável pra quem explora… Quem detém os privilégios não vai brigar por rompimentos nesse sentido e é aí que ta a incoerência.. Lutamos contra a opresão de Gênero com todas as forças e fingimos não ver a opresão de classe? No caso das domésticas isto está amarradíssimo…
“Algumas pessoas não conseguem conceber o que é viver na exclusão de direitos básicos…”
Pois é Thiago. Isso me mata. Eu via colegas com altos salários em multinacional conversando na hora do almoço sobre ter empregada mensalista e não criar vínculo. Vontade de mandar todo mundo tomar no cu.
A Niara já deu a opinião dela no forum e aqui no blog e eu sei que ela acha que tudo é uma canalhice, e eu a respeito. Talvez aos olhos de quem está lendo aqui eu sou uma tremenda cínica por me achar melhor que meus colegas de trabalho escrotos. Essa não é uma questão resolvida pra mim, repito. Você pode achar até muita hipocrisia, tipo, “madame diz que é sensível mas tem mucama pra lavar o banheiro”. Mas aí eu dispenso a Cláudia, ganho o selo de coerência política, gasto a grana que pagava pra ela em qualquer outra coisa e ela continua fudida. Quem ganha com a história? Eu não vou ser menos burguesa se limpar o meu banheiro. Do mesmo jeito que já ter limpado o banheiro dos outros também não me transformou em proletária. Posso ter ficado, se muito, mais humana.
Bom.. o final do seu comentário, só serviu pra justificar a manutenção…
Vale lembrar que, quase ninguém ESCOLHE ser doméstica, e enquanto classe, somos responsáveis pela situação..
Seu argumento só serviu pra justificar pq vc vai continuar com sua empregada…
Entendo perfeitamente oq vc quis dizer com isso (escrevi sobre isso no post, a inutilidade de demitir tdas as empregadas domésticas), mas entenda, que este discurso vindo de você, vai sempre soar como uma justificativa pra manter seu privilégio… òbviamente eu posso estar erado, não te conheço e tals.. Mas é parecido com o argumento de quem julga as empresas exploradoras indispensáveis.. Indispensáveis pra quem?
Entenda que o impasse que vc colocou (se demitir a empregada ela, de fato vai estar fodida [ou não]) não é responsabilidade delas.. é nossa, que sustentamos a estrutura que permite q situaçoes absurdas (sim, absurdas, pq imagina a fragilidade da sua empregada, pra citar um exemplo) como essa se mantenham intactas desde muito tempo…
Disse e repito, não tenho uma soluçaão prática para o problema, mas é preciso reconhecer que há algo de mto errado com essas relações e enquanto nos recusarmos a abrir mão de privilégios isso não vai mudar…
Acredite, eu concordo com o uso do “privilégio” nessa situação!=P Mas como você bem colocou, demitimos todas? Será esta a solução? Ñ sei a resposta, fico com a Iara.
Então, Raphael, acho cretino (sem ofensas diretas, ok?) argumentar dessa forma:
“Ah, não tem solução, a culpa não é minha, logo, nada faço pra alterar”.. Você há de concordar que esta postura é conveniente pra quem explora, nunca pra quem é explorado.
É o mesmo raciocínio que sustenta a teoria da Iara: “Não demito porque, né, coitada da bichinha.. vai morrer de fome…”
A equação é simples e é sobre ela que devemos pensar e agir: Há uma estrutura econômica e social mantida para manter (convenientemente) pessoas as margens do crescimento. Essas pessoas são aquelas que nos servem, e somos cretinos porque nos aproveitamos das mazelas do estado pra garantir nosso conforto.
Aí, antes de refletir sobre isso, eu contrato uma empregada e depois de 10 anos de serviços prestados (o que cria uma certa dependência dela pelo emprego) oq eu faço pra não fazer parte desse mecanismo?
É difícil pra mim imaginar oq fazer nessa situação pq, como disse no outro post, eu sempre fui o filho da empregada. Nunca o da patroa.
Mas, sei lá, posso supor (já que estão pedindo soluções) que talvez fosse justo ajudar a pessoa a perceber a estrutura em que ela está inserida [ao invés de apenas tirar proveito dela] para que o ciclo se rompa… Pode ser UM COMEÇO para uma mudança na mentalidade de empregados e empregadores…
ME lembro de alguém que citou que deu uma puta força pra empregada entrar na faculdade e cursar pedagogia.. Muito melhor do que doar as roupas usadas, pagar um pouco a mais e tals, entende?
O foda é que, quem argumenta a favor da manutenção do status atual, não QUER (na maioria das vezes) pensar em uma saída porque não seria conveniente…E é isso que me emputece, emputece a niara e o Adriano.. Talvez por causa da vivência, da relação que tivemos com isso no passado….
Não me fiz entender, não defendo a inércia ou o velho “o que eu posso fazer senão continuar?” e sim que é útil fazer o jogo político, criticar, debater e até lutar pra mudar a mentalidade, mas não acho que demitir a pessoa resolva a situação. São dois problemas diferentes, um de superação do modelo e outro de entender que, por enquanto, estamos nele.
Concordo com essa de entrar na faculdade e tal, eu ajjudei a Maria, minha faxineira, a fazer a matrícula da filha na faculdade, a resolver uns problemas q ela teve com o estágio e etc… É pouco e eu sei, mas é alguma coisa.
Agora é aquilo, se eu chegar pra Maria e disser que não quero mais que ela faça faxina porque sou contra o modelo ela é que vai ficar na merda, mesmo entendendo a situação dela. Aí que tá a sinuca.
“mas entenda, que este discurso vindo de você, vai sempre soar como uma justificativa pra manter seu privilégio…”
Eu sei, Thiago. Nem tenho problemas com isso. Ninguém aqui me conhece, logo o rótulo de madame-hipócrita-que-defende-seu-privilégio não me ofende em absoluto. Até porque não vim aqui em busca de aprovação, mas de debate.
E sim, concordo em gênero, número e grau que tá tudo muito errado. Claro, se uma decisão minha tem esse impacto na vida de outra pessoa, se a diferença de classe nos distancia de um modo que a maneira como eu resolvo um problema doméstico afeta drasticamente a vida dela, caralho, é porque falhamos como sociedade. Disso eu não tenho dívidas.
Digo, disso eu não tenho dúvidas.
Oi, acho que minha resposta ao comentário do Tsavkko engloba um pouco esse aspecto: pensar em O QUE FAZER, de forma prática e que não tenha um impacto tão negativo qto a demissão e que não seja tão ruim como a inércia…
Bom, a maioria das minhas tias não estudaram. Por tanto não sabem ler.
Uma foram pra prostituição, outras viraram domésticas.
As que foram pra prostituição deixaram de ganhar dinheiro conforme iam ficando velhas. Tenho uma tia q nega até hoje a ser empregada doméstica. Disse q prefere ser puta e por isso é a mais castigada da família, por todos.
As outras q são empregadas, e não sabem ler, ganham menos do que as que sabem ler.
Veja só o tamanho da filhadaputice q é essa profissão: fazem os mesmos serviços, mas o fato de não saberem ler (porque foram proibidas pelos meus avós, orientados pela igreja) as deixa na borda da margem…
As tias q não sabem ler tmb não trabalham só pra classe média tmb. É explorada pela quebrada daqui tmb. Limpam barracos e ganahm uma merreca!
Daí a culpa é de quem? De quem não estudou ou de quem explora?
Não há culpados, há vítimas.
Vítimas do sistema capitalista-religioso-burguês.
Desconstruir toda essa porra, a esse ponto é impossível, cara…
Mas manter essa imundície também é inaceitável…;
Talvez pra quem veja de cima, a visão seja ooutra. Minha mãe tmb foi empregada domestica. Meu pai foi pedreiro. Profissões de gente fodida, cara.
Dizer q tá tranquilo tendo uma empregada limpando sua sujeira, um pedreiro se matando pra fazer sua casa e uma puta te fazendo gozaar e achar que tá tudo bem, porque paga bem e não precisa muito dos serviços é hipocrisia.
E é exatamente isso: já pagam pouco pelos serviços deles e ainda tem poucos patrões q os chamam pra fazer o serviço. Daí tem q correr atrás q nem um louco atrás de casa pra limpar, casa pra construir e pau pra chupar…
Não achem q tá tudo bem porque não tá…
Ao meu ver o problema é, realmente, na mentalidade. O problema não está na profissão, e sim na falta de opção e na forma como são tratados. Conheci prostitutas que adoravam a profissão e empregadas que gostavam do que faziam. Podemos falar que é problema da mentalidade subalterna e etc, mas não dá pra negar a realidade subjetiva. O problema efetivo é na obrigação e falta de opção e no tratamento e na visão de que estes empregos são necessariamente “inferiores”, quando são iguais a qualquer outro e todos tem seu valor e importância.
Cara, uma puta que gosta de ser puta? Ela é puta porque precisa comer…
A outra é empregada porque precisa sustentar a casa e a ela mesma.
Ninguém gosta desse tipo de trabalho…
VocÊ tá generalizando sem conhecimento de caso. Já entrevistei prostitutas em REcife que efetivamente diziam gostar da profissão e já conversei com putas de luxo aqui em sampa que gostavam. Mentiram? Nao sei. Nem sei porque fariam isso. Fato, a maioria pode não gostar e imagino que não gostem, mas não dá pra generalizar.
Aliás, e “precisa sustentar a casa” vale pra toda e qualquer profissão. A diferença tá na oportunidade e no Estado escroto ou não.
Não é generalização.
Uma puta que ganha bem, obviamente vai gostar do q faz.
Uma empregada bem tratada e remunerada tmb.
Mas isso as torna melhor que as q ganahm pouco. É fato.
E não é falta de conhecimento. Eu convivo com prostitutas e empregadas e digo: o problema é o machismo, a falta de uma classe trabalhadora efetiva etc.
É exatamente o q qro dizer: a diferença tá na oportunidade e na disputa de emprego. Uma empregada q sabe ler vale mais q uma analfabeta. Uma puta mais bonita e jovem, vale mais q uma velha e gorda… Isso é fato, triste e real.
É lógico que existe um preconceito, uma desvalorização
Por que será que as defesas mais absurdas do indefensável vem sempre quem tenta na verdade justificar para si, para a sua consciência que explora outra pessoa e se isenta da responsabilidade jogando para o Estado toda a culpa pela situação que “não fui quem criei”? O problema do trabalho doméstico, além de ser resquício da escravidão é o que mais faz cruzar as linhas da opressão de raça e de gênero (aqui, alguns estudiosos me corrigiriam dizendo que o conceito de gênero inclui raça e etnia). Perguntem a uma doméstica negra que não teve acesso à educação se ela pudesse escolher o que teria sido na vida ou se ela deseja para a sua filha o seu ‘destino’ e depois conversamos. Adoro discussão intelectualizado entre “intelectuais” sobre a opressão do outro, que não lhe atinge e pelo visto nem comove. Hoje não é só o Marx que está se revirando no túmulo, o Che também. Odeio muito tudo isso.
Bom Niara, a velha questão dos privilégios (que dessa vez, até o Tsavkko concordou) que ninguém quer abrir mão.. Imagino que é algo que realmente incomoda as pessoas, mas como muitas não conseguem ver uma saída prática para o problema, é mais confortável manter como está… É bem fato que demitir não seria a solução… E o uso desse argumento para manter como está também me emputece e mto…
Entendeu a sinuca? Claro que é uma situação de merda e, nesse caso, um privilégio. Mas não se trata só de abrir mão, e sim que você ao abrir mão prejudica uma pessoa que ganha a vida com isso.
De fato, a sinuca existe… Mas oq fode é dizer q por isso, deixa do jeito que tá…
Como eu disse pra Iara, qualquer argumento de alguém que tem uma empregada trabalhando em sua casa, vai soar como manutenção do privilégio e da estrutura de exploração…
E no final, é bem sabido que a maior parte das pessoas quer é mais que a estrutura se mantenha pq é conveniente, mais barato e mais tranquilo.
Eu fiz a minha escolha, de ñ ter alguém pra limpar minha casa… Imagina se eu pego alguém, só pra ajudar a pessoa? Que ajuda é essa?…
Pode ser uma ajuda, vai saber? No fim ficamos empacados e concordando em praticamente tudo1=)
Parabéns pelo post, muito necessário. Os comentários também estão bons, de alto nível. E é um conjunto de coisas que precisa mudar não só “vou deixar de contratar e limpar minha própria sujeira” – isso é louvável, é um bom começo, mas por si só não resolve a situação de opressão (ao meu ver). Na minha cabeça sonhadora, imagino uma sociedade ideal em que jardineiros, pedreiros, empregadas domésticas e garis escolhessem essa profissão por livre vontade e não por uma obrigação imposta pela condição social. Mas como você disse aí, eu também não tenho uma resposta para esse problema. Tenho outra pergunta pra você Thiago: se o emprego de empregada doméstica fosse tão bem remunerado quanto o de um juiz, você veria problemas?
Eita, que esse povo só me faz pergunta difícil…
Olha Amanda, acho que exploração tem a ver com as relaçãos construídas. No nosso caso, exploramos uma classe.. ISso significa que nos aproveitamos da condição de outras pessoas e, não canso de repetir, essa condição vai ser permanente, pq é necessária para a manutenção do status quo. Não existe elite rica sem uma classe mais pobre.
A questão que gerou mais emputecimentos acho que é justamente essa: Salários mais altos, tratamento digno e tals, amenizam UM probçema individual. Até pq, a maioria se apóia nas questões que foram debatidas aqui (desvalorização, fragilidade econômica, etc) para tirar proveito.. Logo, se a empregada quer férias, a patroa ameaça demitir e contratar outra (só pra citar um exemplo mais simples e comum).
O ponto aqui, é reconhecer que há algo errado e que a grand emaioria não faz nada pra que isso se altere, por mais que tenha consciência do problema.
Pense: Pagar um salário mais alto garante que a pessoa aumente seu poder de consumo.. Mas faz pouco pra romper o ciclo que perpetua essa prática (a da exploração). Foi exatamente oq o PT fez, aumentou a renda mas o acesso a cidadania não deu pra comprar com a grana extra…
É profunda a questão… E pagar mais ou tratar bem a sua empregada altera tanto o quadro quanto demitir todo mundo.
Como ja foi colocado, abolir a profissão não resolve (eu acho que seria ótimo, com um programa que absorvesse de forma adequada as pessoas desempregadas,as vamos voltar pro chão)… Eu acho ótimo que algumas pessoas tenham consciência do problema e que tentem amenizar o impacto, mas é preciso mais… Penso que, limpando minha própria sujeira não soluciono o problema, mas não contribuo para manter a estrutura intacta, entende?
Entendo, é preciso mexer na estrutura sim. Vamos continuar pensando no que pode ser feito pra mudar isso.
Esse é um tema que sem dúvidas mexe comigo, pois percebi/senti as dimensões do trabalho doméstico de diferentes lugares….ora filha de empregada doméstica, mas criada por uma família que “tinha” uma empregada doméstica que de fato criou a mim e a tod@ meus/minhas irmãs/aos (sabe aquela que dizem que é “da família?). É sem dúvidas um debate difícil sobretudo pq esbarra nos privilégios já bem debatidos nos comentários anteriores.
Bom, penso que pra fazer uma análise séria da questão temos que parar de olhar para o umbigo e tentar perceber que embora seja uma questão “doméstica” a reflexão sobre a relação do trabalho doméstico passa pela própria compreensão das relações sociais. Vi comentários que falavam sobre ser esse um trabalho degradante ou não, comparando-o a outras profissões. Penso que o caminho não é por aí e simplesmente pq p/ pensar a questão do trabalho doméstico temos que pensar na própria lógica que ergue o modelo capitalista. Compreendo que esse modelo foi assentado em duas forças que são o trabalho produtivo e o trabalho reprodutivo (aqui considerado como trabalho de reprodução da vida). Historicamente o trabalho produtivo/público foi território masculino e o reprodutivo/doméstico determinado as mulheres numa relação claramente subalterna. Embora o trabalho de reprodução da vida seja fundamental para que o produtivo aconteça, a isso nunca foi dada uma grande importância – afinal…cuidar da casa, filhos, doentes etc etc era relegado as mulheres. Isso pra mim já é o suficiente pra começar a desenrolar os porquês desse trabalho ser “relegado”. Não é o trabalho em si que é degradante – até pq é fundamental para a manutenção da sociedade, mas a importância social que foi dada a ele (e isso não está limitado apenas as profissionais do serviço doméstico, mas também a muitas mães que são donas de casa e que todos olham como se não fizessem nada ou fizessem um trabalho menor). A sociedade valoriza o trabalho destinado ao mercado, relegando a um segundo plano o trabalho não-mercantil. Desse modo, o trabalho reprodutivo, sempre visto como preferencialmente de responsabilidade das mulheres, não é computado como trabalho. Pensando nisso é fácil entender pq é tão difícil para as empregadas domésticas conseguirem conquistar Direitos. Eles até podem ser garantidos pela lei, mas quantos de nós conhecemos trabalhadoras domésticas que vivem na informalidade…vivendo nos pactos servis de “cumplicidade”? Enfim, é diferente de outras profissões aqui citadas como garis ou garçons (que também estão em lugares de servir, mas inseridos em outra lógica de relação de trabalho).
Na minha percepção não é simples assim comparar o trabalho doméstico com outros trabalhos de “servir”, pois possuem significados sociais distintos. A questão é que quando Niara e Thiago dizem “eu limpo minha sujeira” estão querendo dizer – interpreto eu – precisamos re-significar nosso modo de pensar a organização da vida, da sociedade e nisso o lugar do trabalho doméstico. Pq não podemos pensar numa sociedade que valorize o trabalho doméstico como fundamental? Se é fundamental pq não podemos assumir como parte de nossas vidas? Pq homens e mulheres não poderiam ter mais tempo para cuidar da própria casa, da comida, dos/as filhos/as? Eu concordo que na vida “moderna” é difícil administrar jornadas exaustivas de trabalho produtivo e ainda dar conta da reprodutibilidade…sobretudo p/ as mulheres que tem famílias formato padrão com um machão do lado que não levanta nem pra pegar um copo d’água na geladeira. Enfim, acho que é uma tarefa difícil, mas como acho que para pensar o trabalho doméstico é preciso pensar a própria estrutura social…acho que p/ encontrar as solução é preciso também topar romper com essa estrutura e aí é que entra a difícil tarefa de abrir mão de privilégios.
NEsse caso, só me resta assinar embaixo.. Disse tudo…
Oi, Thiago
Eu faço parte da lista das blogueiras feministas e estou pensando muito sobre a discussão instaurada lá a partir dos seus dois posts. Eu reconheço que é difícil abrir mão dos privilégios e que contratamos empregadas por ser uma mão de obra barata (tanto que hoje estou morando fora e não tenho faxineira e não tinha faxineira quando morava em república e não tinha grana). Mas eu me vejo diante de um impasse ao pensar nessa questão: no Brasil, eu tinha uma faxineira que trabalhava para mim de 15 em 15 dias. Ela tinha 50 anos, não tinha os dentes da frente e era analfabeta. A faxina era a única fonte de renda dela. Inclusive, ela estava juntando parte do dinheiro da faxina para fazer um curso de costura e abrir uma lojinha de conserto de roupas. Se eu a mandasse embora para limpar minha própria sujeira (e suponhamos que todas as outras pessoas que a contratavam fizessem o mesmo), como ela faria para ganhar a vida? O que fazer para proporcionar condições dignas de trabalho a quem faz serviço doméstico (para que possam se aposentar, etc)? Contratar uma empregada não é essencial, mas pode ser uma opção. O que eu torço é que fazer o serviço doméstico também possa ser uma opção de trabalho (e não a opção que sobrou, como acho que ocorre na maior parte dos casos), que ofereça direitos trabalhistas como em qualquer outra profissão. O que podemos fazer para que essa realidade se torne mais próxima da realidade de exploração, pura e simples, atual?
Abraços!
Bom maíra, eu vou confessar que não acharia nem um pouco ruim se cada um limpasse a propira casa. MAs entendo perfeitamente que demitir a empregada não vai solucionar o problema (como disse em vários comentários e no texto também)… Por outro lado, usar este argumento para manter os privilégios é toscão…
A culpa pela situação da empregada não é sua.. Por outro lado, se não houvesse uma estrutura que permitisse que situações como esta, não precisaríamos travar esse debate. E é dessa estrutura que tiramos proveito… E sabemos disso, caso contrário, ninguém ficaria dizendo que paga bem, trata bem, paga plano de saúde, 13º salário e tals…
A questão é bem essa.. Lutamos contra a exploração do sistema capitalista e reproduzimos o modelo.. Alimentamos suas mazelas e incogruências..
Não tenho uma fórmula mágica, mas acho que da pra chegar lá, não dá?
Seu caso é ainda mais complicado, pq mesmo que vc não demita a senhora que faz a limpeza pra vc, é sabido que ela não vai aguentar fazer esse serviço por muito tempo (eu faço e sei que é pesadaço) e então? Ela vai viver de que, depois?
Então, Thiago, quanto mais eu penso, mais concordo com você. Eu entendo que justificar o privilégio, em vez de tentar reverter a estrutura, é tosco sim. (Eu entendo, de verdade, que não estou “fazendo favor” pra faxineira ao contratá-la ou a cumprir com o que a lei prevê. Mas eu não consigo pensar o que ela faria sem sua única fonte de renda no momento, sabe? Qual é a solução pra ela? Como fazer com que o trabalho que ela exerce no momento seja mais digno?) Mas como subverter a estrutura sem deixar a pessoa que faz serviço doméstico desempregada? Desculpa voltar às questões, mas só volto porque elas não são retóricas. São dúvidas mesmo. Eu acho que a geração do bolsa-família talvez terá mais poder de escolha, se pensarmos que issso trará como consequência jovens com maior acesso à educação formal (exigida em empregos formais, por assim dizer). Mas, enquanto melhores condições não chegam e enquanto não atingimos um patamar em que o leque de escolha das pessoas possa ser maior, o que fazer? (Angustiada com as questões…)
Niara, eu estou tentando repensar sobre o assunto (e tenho sérias dúvidas se jogar pro Estado resolver pode resolver, mas é uma opção a ser analisada). Repensar privilégios nem sempre é tão fácil, mas estou tentando. Acho bem desrespeitoso “mandar pra porra” alguém que tenta repensar suas posturas…
Maíra, se tu não estás justificando o injustificável e estás tentando repensar tuas posturas, o “apaporra” não te inclui.
Olha Maíra… Eu nunca fiz o perfil dos melhores alunos da escola..rsr…
Entendo perfeitamente essa questão de que demitir não funciona (pelo menos se não houver uma ação SÉRIA do estado pra absorver essa mão de obra)…
Mas veja bem, nunca tive empregada, não tenho idéia de como é a visão de quem está aí em cima..
Sugeri em outro comentário que, seria interessante debater com sua empregada sobre a estrutura em que ela esta inserida.. TBM auxiliar na criação associações (independentes, não que nem esses sindicatos vendidos, please) e grupos para que elas possam se apoiar e se defender da opressão sofrida pela grande maioria.. Pra que possa debater essas questões, pra que possam buscar uma saída desse ciclo…
Eu nunca disse que era um acadêmico e que apresentaria um milhão de soluções… E sou o filho da empregada… Tive alguns privilégios (poder concluir o ensino médio e descolar uma bolsa do prouni) e percorri um caminho que acabou me levando a esses questionamentos… Mas de acordo com minhas vivências..
Sei que é algo que me incomoda tbm (asim como uma série de outros problemas da nossa sociedade).. Mas sei que tem saída… Talvez isso seja coisa de professor babacão que acredita no futuro do país e bla-bla-bla, mas oq eu não consigo é aceitar como normal e natural…
Oi, Thiago
Longe de mim querer exigir “respostas acadêmicas”! Na verdade, só tô debatendo mesmo, tentando repensar minhas posturas e debater possíveis soluções pros empasses que vejo. Também sou “professora babacona” e bem idealista. Acho legal ter contato com as vivências de que você fala, porque, na minha casa (hoje casa da minha mãe), as empregadas sempre tiveram carteira assunada e nunca foram desrespeitadas (não que seja vantagem, é obrigação mesmo), então, eu achava que isso era a regra, mas fui vendo (antes dessa discussão aqui, até) que é exceção. Apesar de falar “de cima”, como você diz, também me sinto incomodada com os questionamentos que você levantou, e as questões que levantei não foram no sentido de te “cobrar uma resposta”, mas no sentido de construir o debate mesmo, de pensar coletivamente em certos impasses. Obrigada pelo espaço e pela possibilidade de me fazer repensar algumas questões!
Ufa, Niara! Como o seu comentário veio logo abaixo do meu, fiquei meio sem entender a agressão… Mas agora você esclareceu
Abraços!
Se toda a população mudasse seus hábitos e demitisse suas empregadas, o problema seria social e o Estado deveria assumir a iniciativa de resolver. Até porque essa é uma dívida do Estado e desse país com essa classe e raça (me refiro à maioria) desde a abolição da escravatura.
Cansada desse papo benemerente de “estou fazendo a minha parte no combate à exclusão empregando alguém”. Apaporra cêis tudo que tentam justificar o injustificável!!!
Muito difícil essa questão. Se eu não tivesse o privilégio de poder contratar duas mensalistas , eu não poderia exercer minha profissão.Tenho 3 filhos( e tudo o que isso envolve), trabalho em torno de 10 horas por dia, dou plantões (inclusive aos fins de semana).Então o que faço pra não ser uma exploradora ? No momento faço o que posso : pago um salário e meio a cada uma , com carteira assinada e todos os direitos trabalhistas.O FGTS ainda não , pois é opcional.Mas depois desse debate estou fortemente inclinada a incluí-lo,
Exato.. E já parou pra pensar oq acontece com quem não tem esse privilégio?
Agora, Mariane, suponhamos que o Estado fosse realmente eficaz em suas políticas de garantir condições dignas de vida a todas as pessoas e então, todos os empregadores de domésticas pudessem, tranquilamente, demitir suas funcionárias sabendo que elas terão melhores condições de trabalho, de vida e que irão lutar para que este ciclo de exploração seja rompido… Quantas realmente estariam dispostas a fazer? E é aí que entra o emputecimento com esse argumento de que: ” se eu demitir, oq vai ser da coitadinha?”… Por trás dele se esconde o desejo de não perder este privilégio…
Imagine no seu caso, com 3 crianças.. Você estaria disposta a abrir mão de seu privilégio??
Imagine agora como seria se você não pudesse contratar domésticas?
O grande ponto nessa discussão toda, é que a maior parte das que lutam contra o fim da opressão de gênero, fazem questão de manter intactas as estruturas da opressão de classe.
Não importa que você pague todos os direitos trabalhistas (e nem que comece a pagar o FGTS) a relação de exploração é a mesma.. Oq define a exploração? Não sou um estudioso de Marx, mas entendo que é qualquer relação onde vc tira uma pequena parte de sua renda para manter alguém fazendo um serviço que garanta que a sua renda possa crescer constantemente… Oq nos diferencia das empresas? A Receita federal? A dimensão da nossa exploração?
O que vc (e tantas outras) faz é amenizar o impacto desse fato gastando mais dinheiro pra agir dentro do que a leigislação (capitalista, diga-se de passagem) exige… Garantir os direitos trabalhistas e pagar um salário digno só mudaria alguma coisa se houvessem punições severas pra quem desrespeita a legislação.
Pense q é o modelo capitalista que exige que, pra exercer sua profissão, vc tenha de abrir mão de tantas coisas, trabalhar 10 horas por dia (não sei exatamente se é o seu caso, mas é o caso de mta gente)…é a lógica capitalista que nos impede de ter tempo pra cuidar de nossas vidas…É a lógica capitalista que cria essa NECESSIDADE de ter alguém pra realizar o seu serviço… E como empregadora, vc só reproduz esse modelo (ainda que dentro da legislação e de forma mais “justa”), já que sua empregada pode ter os mesmos problemas que vc te, de falta de tempo, filhos pra cuidar, etc……
É nesse ponto que eu tô batendo faz tempo… Só no sistema capitalista a exploração é normal e ela não se reduz de acordo com o tamanho do salário… Várias pessoas são exploradas, ainda que ganhem salários altíssimos.. A grande diferença entre um médico ou um jornalista explorado, é que estes tiveram op PRIVILÉGIO de poder escolher um trabalho, uma área e tals… E a empregada doméstica?
Acho que, quando as pessoas pararem de distorcer o conceito de exploração de acordo com o valor pago a estas pessoas, começaremos a caminhar em direção a uma solução JUSTA…
Tabm acho pertinente trazer pra essa discussão a questão da divisão do trabalho entre homens e mulheres…Se há 10 pessoas em uma casa, é impossível que ninguém tenha tempo de fazer o mínimo pra manter a ordem… Essa luta tem relação direta com o feminismo, que luta pra que os homens DIVIDAM as tarefas e não AJUDEM a arrumar a casa…
Alguém sonha quando criança, quero limpar o banheiro de outras pessoas quandro crescer?
Ou meu sonho é cuidar dos filhos e das filhas de outras pessoas?
O “não” indica que ser engeheiro, médica, juíza, cantora, geneticista ou gerente de banco não tem o mesmo teor que limpar uma casa que não é a sua….
o resto: é hipocrisia da classe média….
O debate foi jogado na nossa cara pelo Tiago, e mesmo discordando em alguns pontos do texto, diante do comentário da Mayara Melo (Definitivo!) qualquer coisa que eu escreva aqui será mera necessidade de chover no molhado.
Parabéns a ambos!
O que observei lendo o texto e alguns comentários; é, o quanto damos valor ou não aos substantivos ou pronomes. No modelo social que nós vivemos, sempre haverá alguém submetendo ao outro, não importando grau nem gênero. As pessoas sempre iram se submeter pois elas necessitam de dinheiro, e para tê-lo é necessário trabalho às vezes não trabalho que queremos mas o que a nós são oferecidos, não por méritos, mas por necessidade. Não vejo menosprezo na função exercida no tema discutido mais sim na remuneração, isso deve ser a discussão central do tema.