Homens Invisíveis
Publicitários se alimentam de senso comum. Se não fossem os padrões comportamentais pra direcionar seus esforços [cof-cof] criativos, não teríamos estas propagandas tão inovadoras, inteligentes e fodonas.
Um dos padrões comportamentais que a propaganda mais utiliza é o de gênero. Para a equipe de marketing, homens e mulheres nascem em uma caixinha e é impossível sair dessa caixinha (as vezes acontece, mas pra cair em outra caixinha). Propaganda serve pra convencer a gente de que a gente precisa de algo loucamente e que, sem aquilo, a gente não se enquadra nos padrões sociais, vivendo as margens do mundo normal e, convenhamos, quem é que não quer fazer parte desta festa da imbecilidade coletiva?
É assim que os fazedores de comerciais desenvolvem estas idéias de que mulheres (mulheres de verdade) devem fazer dieta, gostar de shopping, usar rosa, ser delicadas e sentimentais, etc, etc. O senso comum é necessário pra manutenção da ordem vigente, que é totalmente conveniente para as empresas, porque assim, não é preciso criar nada novo, só fazer reformas. Pega aquela propaganda do século retrasado, sacode a poeira, diminui a roupa da modelo e diz que é algo totalmente inédito.
Propagandas de eletrodomésticos, produtos de limpeza, roupas e maquiagem são coisas de mulher. Porque um publicitário tem em seu gene a certeza absoluta de que mulheres nasceram pre-determinadas a desempenhar um papel em nossa sociedade. Geralmente subalterno, de enfeite, como um mero objeto pra servir aos desejos mais íntimos dos homens.
Mas e os homens? Se para os publicitários (sim, porque A PROPAGANDA não é um sujeito e nem teve geração espontânea) as mulheres se resumem a um corpo objetificado, os homens se resumem a seres inanimados, imbecis e incompetentes, cuja única função é ganhar dinheiro e conquistar mulheres. São incapazes de lavar a própria cueca, ou de viver sozinhos, ou de fazer a própria comida, ou de ter sentimentos.
Mas esse não é um texto pra falar que os homens sofrem ou são tão objetificados quanto as mulheres porque eu já superei essa fase. Esse é um texto pra tentar discutir essa idiotização dos homens, que aceitam passivamente esse papel. Ou então, quando não aceitam, vão reclamar com as feministas de que os homens são todos uns coitados e que são as maiores vítimas do machismo.
É um comportamento que eu realmente não consigo entender.
A maioria das propagandas direcionadas ao público masculino [e algumas direcionadas ao público feminino também], nos enxerga como um bando de trogloditas débeis-mentais e babões, que só pensam em sexo, futebol, camisetas polo e mulheres mudas de shortinho. E a maioria dos idiotas aceitam essa condição. E ainda acha ruim quando as mulheres se recusam a aceitar o comportamento ditado para elas. E acham engraçado. E dão risada. E compartilham no Facebook. E gritam e discutem com as pessoas “que não tem senso de humor”.
Eu bebo cerveja. Eu gosto de beber cerveja. E gosto porque gosto e não porque nasci com um pênis [e antes que venham me dizer que eu gosto de cerveja porque sou condicionado pelas propagandas de cerveja a manter um comportamento másculo fodão bebendo cerveja, também gosto de giló. E odeio beterraba].
Eu não bebo cerveja em uma confraternização de machos, na beira da piscina ou em um boteco descolado, na Vila Madalena, com mulheres de bikini circulando. Tampouco gosto de futebol [assunto pra outro post] . Bebo cerveja quando tenho sede. No almoço, em casa, assistindo um filme, morgando na internet. Bebo cerveja pra ficar bêbado e feliz, pra comemorar alguma coisa e nunca tem a ver com os comerciais. E eu também sou capaz de limpar a minha própria sujeira, cozinhar meu almoço e lavar a minha roupa.
Então tem alguma coisa errada. Talvez eu não seja homem. Mas se eu tenho um pênis, pelo menos biologicamente, eu devo ser um homem e não uma mulher. Mas sei lá, talvez na terra dos publicitários, cheia de gente feliz, bonita, sem miséria, sem violência, sem machismo e sem racismo [sem chuva também. E onde só existem praias], eu deva ser um tipo de mutação extraterrestre.
Ou simplesmente esteja fora da caixinha publicitária. Mas, sinceramente, não sei. Assistir todas essas propagandas pra escrever esse texto realmente me deixou confuso.


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